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o regabofe de viver com uma doença mental, teorias da conspiração e receitas de bolos fofos que não engordam


19
Nov18

Anda uma galinha à solta na minha rua. Não faço ideia de quem seja, passo e lá anda ela a esgravatar. Faz-me confusão uma galinha sem galinheiro, sem as outras manas galinhas e sem galo. Uma galinha sem dono. Não sei bem porquê. Talvez porque gosto de animais mas aí poderiam chamar-me hipócrita porque eu como galinhas. Depois de mortas e preferencialmente bem cozinhadas. Sou uma daquelas "pessoas sensíveis" do poema da Sophia de Mello Breyner. 

O raio da galinha anda ali sozinha e eu fico a pensar na bicha. Sozinha. Será que é porque eu me sinto sozinha? Não é sempre, só às vezes. Não sei se acontece com outras pessoas. Também não conheço muitas "outras pessoas", pelo menos não desta maneira. Num planeta com tanta gente questiono-me muitas vezes se existe alguém que se sinta como eu ou que pense como eu, tipo aquelas coisas que pensamos mas não dizemos em voz alta porque em voz alta elas ganham vida e tornam-se reais e têm peso. 

A ansiedade está sempre presente, vigilante, oportunista. Não sabemos se nem quando ela se poderá manifestar. Quando se sente confiante, aparece como um trovão em forma de ataque de pânico. Quando está mais tímida faz-me questionar silenciosamente cada palavra, cada ação, ao mais ínfimo pormenor. 

Agora não é horrível viver assim. Quer dizer, é uma merda, é verdade, influencia tudo o que sou e tudo o que faço, mas não me define. Sou muito mais do que a minha ansiedade ou a minha depressão ou o meu TOC. 

Acredito que a maioria de nós já esteve no fundo do poço ou lá perto, uma ou mais vezes na vida. A primeira vez que lá estive e soube que lá estava tinha 13 anos e foi no momento em que no meio de outra crise ouvi o meu pai, o homem mais calmo e relaxado do mundo, a perguntar "Mas o que é que tu queres que a gente faça mais? Queres ser internada?!" Eu ouvi estas palavras como um eco que me puxou do poço para a realidade. E a minha realidade naquela altura, completamente perdida que me sentia, em que dizia a mim mesma que não queria morrer mas que não sabia como viver, era a de que eu é que tinha que me puxar dali, trepar aquele poço, com unhas e dentes, esfolar cotovelos e joelhos e fazer o que fosse preciso para voltar. Podes ter uma aldeia à tua volta a mandar-te escadas e cordas para o teu poço, a gritar-te palavras de incentivo, a mandar-te amor e compreensão, que se não fores tu a dar o passo para sair de lá, nada há a fazer. 

A boa notícia é a de que há vida para além da doença mental. E pode ser uma vida muito boa. Não será boa sempre mas isso nenhuma é. No entanto, e em pleno século XXI, no tempo das mentalidades super abertas, da liberdade de género, LGBTQ e não sei que mais letras terão acrescentado entretanto, não me lixem, mas ninguém vai ao psiquiatra e leva um comprovativo para entregar ao empregador para justificar a ausência. O meu primeiro psiquiatra, o melhor que alguma vez conheci, dizia-me: "Não mencione no trabalho que tem estas consultas, as pessoas não compreendem...". Pois não. Ou somos maluquinhos ou atrasados mentais. Ou fracos. Somos tão evoluídos em tanta coisa e tão pequeninos e de mente fechada noutras que não faz sentido nenhum. Nunca anunciei ao mundo o que sou, o que passei e o que passo e por isso sofri também muito em silêncio e na solidão. Muitos destes piores momentos foram na minha adolescência. Adorava chegar a quem precisasse de ouvir que virão dias melhores, e sei que estes parecerão sempre muito e muito longe, mas eles chegam. E não tenham vergonha. Não tenham vergonha de serem diferentes, o que é que isso interessa? Onde está o interesse em sermos todos iguais e gostarmos do mesmo, comermos o mesmo, ouvirmos a mesma música e termos as mesmas opiniões? É bom fazer parte da multidão. Mas a sensação de nos perdermos no meio dela não é grande coisa. Não tenho vergonha de ter consultado uma mão cheia de psicólogos e três psiquiatras, não tenho vergonha de ter tomado medicação e de ainda tomar, não tenho vergonha dos ataques de pânico nem tenho vergonha das cicatrizes da auto-mutilação dos dias de maior escuridão. Não tenho vergonha de ter que ouvir a música no carro com o volume num número ímpar ou então tenho medo de ter um acidente ou se não entrar com o pé direito no comboio irá haver um enorme desatre. Nem tenho vergonha dos pensamentos repetitivos, das associações de certas palavras ou expressões, pedaços de música que repetem vezes sem conta até entrar em pânico e não tenho vergonha da sensação de que irei enlouquecer. É a minha realidade. É a minha luta. É a minha vida. E se certezas tenho é a de que cairei muitas e muitas vezes. Mas levantarei-me tantas vezes quanto cair. E levantarei-me mais forte após cada queda.

Muito gostava de trazer aquela galinha para casa. Tenho a certeza de que poderiamos ser boas amigas.

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6 comentários

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De Mãe Maria a 20.11.2018 às 15:02

ah, ah, a companhia de uma galinha. O meus pai tinha uns tios que tinham mais de que uma galinha dentro de casa. o galinheiro era na banheira. Como tomavam banho, isso não sei. se calhar não tomavam.
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De Marta Elle a 20.11.2018 às 17:07

Não sei como é que as pessoas conseguem deixar os animais andar na rua expostos a vários perigos.
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De Maria Mar a 20.11.2018 às 18:36

Obrigado. Simplesmente, obrigado. Obrigado por ser quem é e dizê-lo aos quatro ventos, sem vergonhas, sem medos!
Neste mundo em que as pessoas passaram a ter de se encaixar em modelos, classes, tabelas, invólucros, acredito que no cerne todos têm os seus monstros. Estejam eles mascarados de sorrisos no Instagram, escondidos no meio de festas, férias e Natais. Ou parcialmente afogados em noites "frias", naquele tal poço! Mas sem cair
ou se caírem ninguém sabe pois "amanhã é outro dia" e põem-se nova maquilhagem para esconder as marcas. Outros como você, como eu, aprendemos a viver com as nossas sombras, a ter permanente noção que estão sempre connosco, que aqui e ali, vão tentar aparecer e intimidar, aterrorizar, mandar ao tapete. Embora, a sombra já não tenha o factor surpresa da primeira(s) vez(és). Conhecêmo-la como a nós mesmos. Aliás, já faz parte de nós, não acha? Gastei metade da minha vida e ainda não encontrei a fórmula que me ensine a saber viver. Também não tenho vergonha de o afirmar. Desconfio que a cada queda, não me torno mais forte, quiçá mais calejada, com menos expectativas, a saber melhor quem sou e a apreciar estar "sozinha" comigo. Quem diria, sou a minha melhor amiga :)
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De Helena Tomé a 20.11.2018 às 20:35

Nos Estados Unidos é muito comum as pessoas terem psicoterapia. Mesmo na escola a miudagem vai à psicóloga mais vezes do que à missa.
Antes da 2 Guerra Mundial iam menos, mas com a guerra aquilo foi um upa upa e com o Vietname nem se fala. Curiosamente os hospitais psiquiátricos foram fechando - era moda integrar toda a gente na sociedade; cresceu o número de sem abrigo pois se nem os médicos queriam aturar pessoas perturbadas, por que razão haviam as famílias de aguentar. Apesar dos novos medicamentos, sabe-se que já na escola os miúdos que não têm aproveitamento ou são pobres e mal tratados ou têm problemas psicológicos. Ai não, com aquilo que vêem no telemóvel, sem filtros, deve ser um mundo de loucos.
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De Joao António Fernandes a 20.11.2018 às 23:15

Belo texto. Obrigado. Um abraço
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De soraia a 04.12.2018 às 13:33

Muitos parabéns pelo teu destaque!! Excelente texto que escreveste,tens razão em tudo o que dizes!! Já o facto da galinha,achei uma piada imensa,seria engraçado viveres com ela em casa!!

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