Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

o regabofe de viver com uma doença mental, teorias da conspiração e receitas de bolos fofos que não engordam


12
Set18

escrever para quem?

por corvoseunicornios

Escrever sabendo que só eu vou ler ou escrever sabendo que existe a eventualidade de outros lerem são duas experiências muito diferentes. A ideia de escrever para outros lerem assusta-me e faz-me duvidar de que aquilo que estou a dizer está a sair com a minha voz. Não sei porquê.

Li há uns tempo de alguém que largou a sua profissão para escrever e que depois enfrentou um bloqueio enorme. Até que um dia comprou uma série de cadernos baratuchos e prometeu a si mesmo que, fosse o que fosse que aí escrevesse,nunca ninguém o iria ler a não ser ele. E assim, segundo o testemunho dessa pessoa, escreveu a melhor coisa que alguma vez havia escrito na sua vida. No entanto, e visto que levava uma promessa muito a sério, mesmo tendo escrito algo que considerava espetacular, não o iria mostrar a ninguém.

Como passei e passo demasiado tempo a pensar e sempre com a ideia de passar para o "papel" o que penso, não porque sejam coisas do outro mundo mas por uma questão prática, a de tentar organizar as ideias, escrever ainda é mesmo muito difícil para mim. O que estraga tudo é quando vou ler e não gosto nada do que escrevi e 99,9% das vezes apago o que escrevi. Talvez o segredo esteja em não ler nada ou não me levar tanto a sério. Ou deixar de ter medo do que os outros possam pensar de mim.

Sou uma pacificadora por natureza. O que mais desejo para este mundo é paz. Detesto o conflito, detesto o barulho, fujo dos gritos e das confusões. E a sensação que me dá é a de que o mundo está cada vez mais barulhento porque toda a gente acha que para se fazer ouvir tem que falar mais alto do que o próximo e assim sucessivamente. 

Parece-me que o mundo vai fazer um reset a qualquer momento.

Não preciso que me apontem o dedo. A maior crítica de mim sou eu mesma. Ninguém é mais dura comigo do que eu mesma. Ninguém tem maior noção das suas fraquezas, das suas falhas e dos seus defeitos do que eu mesma. Mas isso talvez possa ser uma vantagem. Se tenho presente isto, talvez possa trabalhar para ser melhor. 

Não se chega aonde agora estou sem batalhar muito. E as batalhas desta vida, não se engane ninguém, são coisas tão privadas, imunes a comparação. É neste contexto que o "quem vê caras não vê corações" se põe mesmo a jeito. Niguém precisa de carregar na cara o peso que carrega no coração.

Talvez seja impressão minha, a perceção é algo tão pessoal, mas a doença mental, tão falada nos tempos que correm, ainda é um tabu bem compostinho. Ou será vergonha alheia? Não é coisa de que se fale. Pode-se mencionar a ansiedade, eventualmente a depressão, mas pouco mais. Não falamos. Levantam-se os antidepressivos e os calmantes na farmácia mas não se fala na depressão como se fala dos diabetes ou da ciática. E nós, portugueses, consumimos uma quantidade absurda desta medicação, por norma anos a fio. Falo por conhecimento próprio. E a realidade é a de que a medicação é um triste remedeio, usando expressão da minha avó, um triste remedeio de que nada vale se não houver outro tipo de tratamento, um bem mais eficaz a meu ver, opinião de doente: falar, partilhar, fazer terapia. Tenho a perfeita noção de que não sou a única com ansiedade, com depressão, com transtorno obsessivo compulsivo, no entanto o sentimento de solidão não desaparece, nem por um só segundo.

E então, escrever para quem? O segredo agora é não ler nada (ou tentar) para não apagar e acabar como outras centenas de textos: no lixo. Vou escrever para mim e pode ser que um dia seja boa o suficiente para escrever para os outros que me queiram ler. E talvez sentirem-se menos sozinhos, nem que seja só um bocadinho.

Autoria e outros dados (tags, etc)


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.09.2018 às 14:24

Não estás sozinha! Eu li, e estou na mesma luta.
Imagem de perfil

De Vagueando a 20.11.2018 às 18:48

Escrever para ninguém mas para descontrair, embora, escrever canse e muito. Escrever por prazer, partilhar por prazer, é isso, inócuo sem barulho e sem ofensa, apenas escrever porque se quer opinar, não impor, nem causar dor.
Escrever porque descontrai, alivia, a qualquer hora do dia ou da noite, sem receio da critica imediata ou tardia, da raiva alheia ou com medo do açoite.
Escrever por escrever mesmo que ninguém vá ver, ou ler, antes isso que morrer sem saber que se pode pensar, meditar ao escrever.
Escrever simplesmente para não ficar demente, nem dormente.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D